peças sonoras
Durante a residência, inúmeros registos sonoros foram feitos em passeios exploratórios no Concelho, partindo duma postura de escuta e observação, e da procura do improvável. Esta procura deu origem a um arquivo sonoro que descreve uma relação extremamente pessoal com as especifidades do território e da comunidade. O material gravado consta de ambientes naturais, fenómenos sonoros específicos, música tradicional, eventos sociais, conversas e muito mais.
Alguns dos sons gravados forneceram a base para um desenvolvimento musical mais subtil e específico, mais “composicional” – uma espécie de recontextualização dos próprios lugares, criando assim um imaginário maior a partir das experiências vividas.
Peça Sonora: Vascão
Uma das características centrais do Concelho de Mértola são as condições climáticas extremas, principalmente as temperaturas elevadas e o sol durante os meses de verão. No entanto, devido a uma primavera húmida em 2024, o rio Vascão (um dos locais de exploração) ganhou muita água durante os meses de março e abril. Isto significa que foi uma primavera insólita e maravilhosa – numa das zonas mais secas e quentes do país, a água torna-se um elemento quase “sagrado”, imaginando, por exemplo, o valor fundamental que tinha para o funcionamento dos moinhos antigos à beira do rio.
O percurso no Vascão (onde os sons foram gravados) mostrou um lado misterioso e enigmático, remetendo para a entrada a um mundo fantástico – uma sensação que foi intensificada pela chuva e pela natureza em abundância. Para além disso, várias histórias e lendas sobre moinhos e moleiros (ver Caminhada na Ribeira do Vascão) influenciaram a construção desta peça sonora, na qual surge uma relação intensa entre a realidade e a imaginação, fortemente ligada às especifidades do lugar.
Peça Sonora: Mina de São Domingos
O ambiente na aldeia da Mina de São Domingos é caracterizado pelo peso da sua história, por um lado em relação à vida desgastante durante o funcionamento da mina e às terríveis condições de trabalho, por outro em relação ao abandono do lugar após o encerramento da mina. A gravação que deu origem a esta peça sonora surgiu num dia de muito vento, documentando sons produzidos pelo movimento de várias chapas metálicas na rua, dando corpo a este “espírito” da Mina.
Foi só mais tarde que descobri uma outra faceta deste espírito, no contacto com os habitantes e sobretudo com o Grupo Coral da Mina de São Domingos. Aqui, ao assistir aos ensaios e convívios do Grupo Coral, o que prevalecia era um extraordinário sentido de comunidade, uma energia de união e de pertença ao lugar, transmitindo uma postura progressiva e positiva.
As experiências comoventes levaram a questionar a relação entre estas perspectivas aparentemente contrastantes do lugar, que afinal parecem ser consequências uma da outra.
Peça Sonora: Contentor no Rio Guadiana
Num passeio junto ao rio Guadiana e perto da vila de Mértola, numa área de biodiversidade, descobri um contentor metálico enorme no topo de uma pequena colina. O objeto, com a sua presença forte e agressiva, tinha um impacto impressionante que contrastava muito com o ambiente natural em redor. O que trouxe o contentor a este lugar insólito terá sido uma das cheias históricas do Guadiana – remetendo para uma relação entre a cheia como fenómeno natural agressivo e incontrolável, e o contentor como eco/lembrança da mesma. Ou, mais além, para uma relação curiosa entre o Natural e o Inatural – um objeto alheio em “exposição”, quase como se tivesse um significado neste lugar – quanto é perturbação e quanto é consequência? Até que ponto influencia o ambiente e até que ponto é influenciado por ele?
Todos observam contristados a invasora torrente; admiram a instabilidade das couzas do mundo, e contemplavam attentos os phenomenos a que está sugeito tudo que existe debaixo da abobada eterna da Natureza!
(Excerto do jornal “O Bejense” de 1860, relatando sobre uma cheia do Guadiana)
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